“O PADRE”

     Certa feita um homem chamado Januário , casado e de certo modo respeitado no vilarejo onde morava, decidiu viajar. Ausentar-se por tempo indeterminado. Visitar um compadre.
     Era um sujeito até pacífico, mas que se irava com facilidade. Quando dava para beber entre amigos sempre arrumava uma briga, chegando bêbado em sua casa, e a esposa Leonora tendo que suportá-lo.
     Eis que partiu Januário em viagem. E, em sua rota  cavalgando tranqüilo caminho afora, ao meio-dia desarreou do cavalo num vilarejo. Atou-o com o próprio arreio num umbral de madeira na frente de uma taberna do local. E aí comeu e bebeu lá sei quantos copos de vinho.
    Acertou a conta e partiu prosseguindo seu caminho. A certa altura um esmoléu estendendo a mão  em sua direção  faz com que ele puxe as rédeas do cavalo e pare.
     Suplicou-lhe o esmoléu um dinheiro, pois estava faminto. Januário olha de soslaio para o mendigo e em desconforto, tira do bolso uma nota de pouco valor e estende ao sujeito sem desarrear do cavalo.
     Joaquim, o mendigo, lhe agradece abençoando-o em sua jornada.
      Prossegue então Januário em seu caminho. Já não tão distante de seu objetivo. Era tarde e o sol ainda não se havia posto, sentiu sede e tornou a parar o cavalo junto a um estabelecimento que desconhecia. Entrou sentou a uma mesa, pediu uma caneca de água fresca e em seguida tomou mais uns copos de vinho. Foi quando se deu conta de mulheres que se movimentavam próximo ao balcão com vestimentas provocantes. Tratava-se de um bordel.
    Ele não perdeu tempo... Escolheu uma das raparigas de seu gosto. Foi até um dos quartos e saciou-se.
     O sol já ia se pondo quando enfim Januário chega ao seu destino. A casa de seu compadre.
     Foi bem recebido, travaram conversa até tarde e Januário disse então que precisava dormir, pois queria estar de volta logo no dia seguinte a sua casa. Onde lhe aguardava a esposa Leonora.
      O compadre então lhe encaminha para um quarto onde este mal se deita na cama adormece.
      No silêncio da noite Januário levanta-se para usar o banheiro e dá de encontro com a comadre que ainda não dormira envolvida em afazeres seus.
      Ao sair do banheiro Januário, à surdina, vai de encontro a sua comadre e, tapando a boca desta atira-a sobre a mesa e ali mesmo consuma seu instinto bestial, de homem bruto e descomedido. Seu compadre dormia no quarto.
     Januário após o ato de estupro com a comadre ameaça esta de dar cabo a sua vida se participasse o ocorrido com o compadre ou outra pessoa qualquer.
     No dia seguinte despede-se sem nenhum pudor do compadre e de sua comadre e parte de regresso.
    Quando estava a caminho principiou Januário a refletir nos acontecimentos do dia anterior. Chegou até a diminuir o galope de seu animal. Sentia-se incomodado consigo próprio, porém não de todo arrependido de tudo que fizera.
    A certa altura, deu-se conta das horas, e deu partida veloz em seu cavalo para estar de volta a tempo de que sua esposa não estranhasse sua demora. Passou pelo local onde Joaquim o mendigo lhe abordara, no entanto este já não se encontrava mais lá.
    Ao final da tarde chega ele em casa. A esposa o recebe com alegria e ambos se abraçam e trocam beijos.
   À noite já no jantar Januário volta a se lembrar dos acontecimentos da viagem até a morada de seu compadre. Sente-se inquieto  e só pega no sono tarde da noite, quando sua esposa já dormia há muito tempo.
    No dia seguinte lhe ferroava a alma a traição da mulher com sua comadre. Fez a refeição da manhã e antes mesmo de dar conta dos afazeres no rancho  em que morava, parte rumo à cidade para confessar-se com o padre do local.
     Chegou antes mesmo do toque do sino e do início do horário de confissão e da missa.
     Aguardou num local próximo recostado numa árvore. Logo que ouviu o sino da igreja entrou e foi direto ao confessionário. Após ouvi-lo o padre lhe disse qual eram suas preces para perdão dos pecados.
    Ele reza então o que o padre o orientara, e inquieto aguarda a missa. Na hora da comunhão embora,  não sentindo-se digno de recebê-la  mesmo assim comunga.
    Deixa então a igreja. Vai rumo a uma taberna onde pudesse tomar uns tragos. Trazia consigo na cintura seu revólver do qual nunca  se separava.
    Sentado, bebendo não lhe saia da cabeça a possibilidade de escapar dos ouvidos do padre a confissão que fizera.
     Foi então quando o sol rumo a se por fez com que Januário tomasse uma decisão súbita consigo próprio, a qual lhe gelou a alma.
     Foi até a igreja e informou-se do paradeiro do padre. Disseram-lhe que se encontrava próximo a praça do local.
    Este então parte para a praça e chegando lá dá de encontro com Joaquim o esmoléu que caminhara a noite inteira até chegar ali. Próximo a ele estava o padre. Conversavam.
     “Diabos”... Pensou consigo Januário, na certa a comadre deu com as línguas nos dentes e a história já se esparramou.
     Indo então de encontro ao padre e ao coitado do pedinte. Saca seu revólver e, no intuito de acertar um tiro em cada um. Desfere um de cheio na cabeça do padre.
      O povo que ouviu o barulho do tiro acorreu ao local. Aterrorizado, atrelado ao cavalo. Januário finca a espora no animal e corre sem rumo certo. Porém ainda deu tempo do mendigo Joaquim apontar para ele dizendo à multidão:
     - Ele...! Foi ele que assassinou o padre.
     Dando cabo à vida daquele que poderia ser o lacre de seu segredo. Do ato abominável que cometera.
     Januário em seu cavalo segue rumo à saída do vilarejo. Fugindo à vista de todos atravessando no meio da turba.
       Ao se afastar com o cavalo seu pensamento e desejo era um só: “...Que olhassem para ele com um pouco de piedade e misericórdia, sem tanta sede de vingança”. Mas era tarde já se consumara sua ruína.
        Até hoje não se sabe que rumo tomou ele ou qual foi o seu destino daí para a frente.

FIM




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UM POEMA