“O FILÓSOFO VERIDIANO”

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PRIMEIRO ATO

- Meu nome?
- Meu nome é Veridiano.
- O que faço?
- Filósofo, pelo menos, considero-me um filósofo.
- Tomo de meus pensamentos como se pedras fossem, e atiro-os num lago imaginário. E observo e admiro o efeito deles por sobre a superfície deste lago.
   Dou-me conta que na certa meus pensamentos são profundos e grandiosos, pois uma seqüência de círculos concêntricos se forma na água em direção à margem do lago.
- E o lago?
- O lago é imenso! Imenso e também profundo.
- Meus pensamentos, portanto, os sei sólidos e de peso considerável. Formam círculos na água. Afundam. E os círculos formados se expandem e desaparecem.
- E lá se foi então o fruto de um cismar meu.
- Creio também que é acertado dizer que meus pensamentos são como brasas. Brasas que em realidade ainda não incendiaram ou atearam fogo a coisa alguma.
   Pois minha sede, minha necessidade primeira é a de discípulos.

- Por isso mesmo acredito-me um filósofo, um pensador.
- Mas quando me entrego de corpo e alma ao meu pensar, esbarro logo numa impossibilidade de transcender pelo pensamento.
- Se abro a boca em busca da pela palavra para articular o que brota na certa de meu cérebro; resulta nisto meu caro:
- Uma eloqüência evasiva.
- Certa vez pedi a Deus, que misericordioso fosse comigo como o foi com Jacó.

- Queres constatar minha lealdade?
- Indaguei eu de Deus.
- Envia-me um anjo! Interpelei eu junto a Ele.
- Ainda que seja para eu ser vencido por ele, sem tornar-me de um Veridiano em um Israel. Não me importo.
- Não me foi enviado um anjo... e Deus?
- Deus continuou a ferroar-me o coração.


SEGUNDO ATO




- Olha! Agora voam pássaros altaneiros por sobre a superfície do lago. Também eles são como o fruto de meu pensar.  Elevam-se mais e mais, e findam numa rota que não deixa rastro.
- Antes fosse eu um artesão.

- Porque nunca aprendi um ofício através do qual por minhas mãos concretizasse algo?
- Pois o meu pensar...
- O meu pensar concretude alguma alcança. E se persisto nisto é porque amo mesmo divagar.
- Certa vez acreditei ser por mestre de certo jovem.
- Há longo tempo deu-se este ocorrido.
- E me foi meu discípulo por delito.
- Cometeu verdadeiro latrocínio de minhas idéias.
- Então disse eu para mim mesmo:
  “Aquieta-te! E aguarda outro.”
- Me reuni com amigos e me vi só.
- Desprezei e condenei ao inferno meus inimigos.
- E me dei por saciado.
- Iniqüidade e pecado, meus caros, sempre transbordou em minha alma.
- Paciência quis equivalente a Jó.
- Para isso?
- Para isso disse a mim mesmo: “Aquieta-te!”
- Recordo agora, buscando pela memória um fato.
- Um fato que posso narrar.
- Não se preocupem! Vocês que me ouvem.
- Não é longo, nem enfadonho.
- Começo e termino já!
- Nunca cri saciar-me tanto do riso como numa certa feita:
  “Contando eu uma piada, ouvi outro contar uma melhor, e me saí com uma melhor ainda.”
- Ora veja! Talvez encontre um princípio para filosofar.
- Ora, ora... Não se irritem!
- Prometi a mim mesmo, não findar isso com uma anedota.
- Reflito agora comigo: “Para poder ensinar. Devo filtrar meu pensamento, destilar o conhecimento e definir”.
- Esse será o método. Essa será a medida de meu filosofar.
- Para isso....
- Destilar o conhecimento... E necessito:
- Filtro para o líqüido.
- Peneira para o sólido.
- Brasa para atear fogo.                               
- Nos elementos de meu pensar:
- A água, a pedra, a chama já!
- Peço... Peço não... Imploro.

- Pensem comigo agora, reflitam um pouco... Ocorreu-me que ainda há tempo para outro discípulo achar.
- Preciso acreditar que há espaço e tempo. Tempo ainda para não só divagar, mas essencialmente caminhar.

TERCEIRO ATO



- Ora vejam só...! De sentado vejo-me a andar.
- Não preciso de coisa alguma, basta recorrer à memória e percebo que esbarrei com outros discípulos.
- Doze?
- Treze?
- Não importa.


- O importante é que agora meu coração bate e minhas palavras encontram eco.
- Primeiro, venero, depois amo e então adoro.
- Segundo: imponho uma condição aos ouvidos que me ouvem.  Atenção.
- Deduzo comigo que sou primitivo.
- Desculpem, desculpem...
- Primitivo não. Arcaico. Tendendo ao que ainda não foi grafado.
- Por quê?
- Explico já, só um momento deixem-me sentar.
- Ouçam e estejam atentos.
- Como disse não tenho habilidades. E descubro logo que possuo inúmeras delas.
- Por exemplo: falar, ouvir, ver, caminhar e, acima de tudo pensar.

- Perceberam? Princípio, ou percebo agora, que regresso ao filosofar.
- Enfim um pensamento concreto de uma seqüencia de falas, perfeitamente lógicas.
- E isso para mim é tão óbvio como um mais um são dois.
- Bem como um dividido por zero não existe e dois mais dois são quatro.
- Querem mais?
- Uma música?
- Do som de meus pensamentos atirados na água feito pedra. Somado ao som de meu pensamento num arrabalde de pássaros, imagino logo:
                                    FAZ-SE OUVIR
   “Barulho, ou bramir de ondas, unido a ventos, raios, tempestade e uma admirável orquestra.”
- Não conseguem ouvir?
- Acurem os ouvidos!


 QUARTO ATO


 # Fecham-se as cortinas e Veridiano regressa como não mais um homem comum contemporâneo, mas com vestes longas.#

- Ora essa, ora essa!
- Dou graças a Deus, por ter-me lembrado que esbarrei no passado com outros possíveis discípulos.
- Um momento e volto já.
 #Caminha até certo local do palco, chama: Venham, e regressa para o centro do palco com quatro jovens vestidos semelhantes a ele, que se sentam a seu redor em semi-círculo no chão.#
#Junto com o traje longo traz consigo uma cartola (artificial), e reverenciando a platéia prossegue:
- Eis que sacerdotal me fiz.
- Querem mágica?
- Mágica terão.
- Desculpem o plágio:
- “Parte da parte sou daquilo que no início tudo era”.


#Rasga a cartola e a atira-a ao chão.#

- Querem profecia?
- Aqui estou hoje, amanhã não estarei!
- Me querem justo?
- Investiguem-me os bolsos!
- Me querem santo?

- Enterrem-me primeiro!
- Sentimento?
- Enuméro-os já: a alegria, a tristeza, o amor e o ódio.
- O ermo no coração, o paraíso no chão.
- Nobreza?
- Justiça e honra, em parcelas iguais.
- Realeza?
- Indiscutível permissão de poder tronar.

- Disse atrás que artesão não era, e ...Vejam só!
- Com atenção, só com meu pensar, consegui até mesmo meu próprio trono edificar.
- Do firmamento:
   “Nisso me emendo: Zeus e Hera uno-os já”.
- Da terra:
  “Solidão, solidão ainda me espera”.
- De império:
  “Que perpétuo seja eu. Céus ou Terra contemple e o tempo a passar”.
- Um juiz?
- Um julgamento humano primeiro.
- Um sistema justo de um possível libertar ou condenar.
- Uma sentença?
- Ato e desato e concluo já:


   “Morte na certa, vida em justiça ou indulto assim o espera”.
- Ora essa, ora essa!
- Rei, Juiz, Imperador?
-  Eis que filósofo sou, e assim sempre serei.
- Me aguardem, me aguardem... Ocorreu-me um lapso uma abertura para  afiar mais ainda  meu filosofar.
- Entretido no falar. Esqueci de meus discípulos apresentar!
- Estes que vocês vêem comigo bem o sabem; nem por amigo ou inimigo hão de conclamar-me.
- Possível justiça, para possível filósofo que no início pensei não ser.
- O que dirão de mim?
- Isso espero que já o saibam. Caso contrário, eu mesmo o digo.
- Não mais que aquilo que de mim ouviram. E sei que para si próprios guardam como indiscutível: seja o dito ou o inaudito.
- Para mim?
- Para mim é esse o veredito.
- O veredito de um possível filósofo.
- Jovens e belos até certa medida e ainda com o pensamento voltado para o futuro. Acredito mesmo ter sido de por valor ter eu com eles topado e eles comigo... Meus amigos!
- O tempo...
- Início e fim, fim e começo. Vida e morte, esperança na medida. Coragem ou medo, fé despercebida... Sorte ou azar. Tudo, tudo numa só vida.
- Do bem?
- Permitam-me dizer ele em mistério se constitui.
- Do mal?
- Me perdoem por outro plágio:
  “Do mal está dito:
   - O seu nome? O seu nome é legião”.
- Para além do bem e do mal?
- Só um possível deus em soberania, a conceder ao homem sabedoria.
- Respeite-se o que está estabelecido:
- Quanto á natureza?


- O mineral, o vegetal, o animal.
- Terra, água, fogo e o homem inserido nela.
- Do conhecimento suas múltiplas vertentes.
- Seiva seja este, o conhecimento, para o homem como o sangue lhe é por vida.
- Do poder do homem sobre o homem?
- Antes a liberdade em soberania. Jamais a tirania.
- Digam agora meus discípulos, primeiramente, o que para mim é jóia rara, o nome vosso. E, que por é emblemático à cada um assim o é.
# Cada um dos quatro vai à frente do palco e diz seu nome.#
- Apolo.
- Baco.
- Cássio.
- Dédalo.


- Agora, seus ofícios.
- Profetizo.
- Embriago.
- Julgo.
- Construo e edifico.
- Surpresos estão?
- Porque eu? Eu creio que não ficariam.
- Por quê?
- Haja-me de paciência e sabedoria, para com esses quatro estabelecer minha filosofia.

ÚLTIMO ATO

 #Fecham-se as cortinas e ao abri-las novamente, encontra-se Veridiano de pé à frente dos quatro jovens como antes e estes, sentados no chão em semi-círculo mais atrás.


                    “Uma música curta de plano de fundo”


- Meus discípulos, ao menos estes quarto aqui reunidos, são assim em harmonia; como a música de um suave flautar.
- Encho até a borda meu odre, e na medida precisa despejo até a borda na preciosa taça de cada um deles, a seiva de meu filosofar.
- Qual teu alvo Apolo?
- Previnir.
- E o teu Baco?
- Alertar para a medida certa.
- E o teu Cássio?
- Metrifico a medida. Dou prumo ao que se fez torto.


- E o teu Dédalo?
- Aprisiono na memória. Edifico feito símbolo.  Todo e qualquer ensinamento.
- Vejam só perfeitos receptáculos para meu filosofar são estes meus quatro discípulos.
- Não concordam?  Pois eu não aceito objeção quanto a isso.
- Bem como sei que esses meus discípulos concordam comigo.
- Acaso haja um aqui que discorde, junte-se a eles, e farei deste, mais um de meus receptáculos.
- Como se dá isso?
- Demonstro já!
- Venha aquele que desafia, com um argumento, seja no coração ou na razão, em prontidão.
- O que ouço?
- Silêncio?
- Ora essa!
- Então como disse meu ofício é o de filosofar.
- Filosófo e nada mais.
- E os desafio:
- Verifiquem, verifiquem consigo próprios, se eu não sou  Veridiano.
- Veridiano o filósofo.


FIM



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