“PAIXÃO E COBIÇA”


     Certo rapaz de nome Ícaro, chegando a uma cidade onde se estabeleceria por tempo indeterminado, sai em busca de um quarto de aluguel.
       De antemão digo não ser desnecessário traçar qualquer perfil do caráter de Ícaro,
a própria narrativa se encarregará disto.
       Cursando engenharia eletrônica, vindo de família pobre, sem pais que tivessem condições de auxiliá-lo a prosseguir nos estudos, trabalhava num departamento público, que lhe proporcionava o sustento. Um modesto salário.
        Passava Ícaro sempre com a quantia necessária até a virada do mês. Nunca sobrando um vintém de um mês para o outro.
        “Maldição”, era sua constante exclamação ao fazer contas e mais contas, tentando uma possível economia e sem nunca alcançá-la.
         Havia deixado uma pensão onde morava, ocupando um quarto individual. O preço mensal a ser pago subira e ele então viu-se obrigado a mudar.
         Aquela cidade era um centro urbano como certas metrópoles atuais e Ícaro considerava esse detalhe como algo satisfatório, pois sabia que se tivesse permanecido em sua cidade natal, sua situação financeira seria ainda pior.
         Naquele dia em especial, seu desapontamento com a vida era maior. Além de ter que se mudar da pensão, fizera uma declaração amorosa e ouvira um não como resposta. Estava o pobre apaixonado e não era correspondido.
         Decidiu-se por comprar um jornal. Ficaria mais fácil seguir os classificados. Era exigente quanto às condições do ambiente que almejava, aliás, aqui já vem à luz uma de suas características. Vira outros de sua família enriquecer e, a qualquer custo, insistia em manter um estilo de vida que exigia dinheiro.
          Comprado o jornal, sentou-se na mesa de um restaurante, fez seu pedido e iniciou a seleção do que lhe oferecia o jornal.
          “Sete opções”, concluiu.
          Pagou a conta, Comprou um cartão telefônico e por contato, eliminou cinco das opções. Foi então à primeira das duas pensões relacionadas. Para sua felicidade, ficava no bairro central, lugar de fácil acesso.
           Tratava-se de uma casa de aparência simples. Apertou a campainha e uma senhora idosa surgiu à porta, entreabrindo-a, e mostrando uma das faces do rosto enrugado, indagou:
           - O que deseja?
           - É sobre o quarto para alugar. Declarou o rapaz.
           - Ah! Sim, só um momento.
           A velha fechou a porta, e Ícaro aguardou dois ou três minutos no portão, logo regressando ela que de forma cortês convidou-o a entrar.
           Conduziu-o por uma escada ao lado da porta de entrada ao andar superior da casa. Dizendo com certa dificuldade enquanto subia os degraus:
            - É um quarto muito bom para um rapaz só. Mobiliado inclusive.
            - Ótimo, consentiu Ícaro, era algo assim mesmo que estava procurando.
            Satisfeito com o quarto e o ambiente de certo requinte que lhe inspirava a casa, fechou negócio com a proprietária.
            - Dona Guiomar é o nome da senhora, não é isso?
            - Sim, respondeu esta.
            - Considero o preço justo e está dentro de minhas condições pagar os três meses adiantados. Fico com o quarto. - Conclui Ícaro, feliz por estar fazendo um bom negócio.
            Em menos de uma semana mudava-se para o local. A velha senhora, o recebeu,  e satisfeita com o novo hospede disse:
            - Moramos em poucos aqui. Com você somos em quatro agora. Há uma moça e outro rapaz. Portanto não se preocupe que o ambiente é de sossego. Os outros dois como você, trabalham e estudam. Somente eu passo o dia em casa.
              Quanto à limpeza, quinzenalmente uma faxineira providencia tudo. Só um detalhe. Seu jantar estará sempre na geladeira. O café da manhã você mesmo se serve. A refeição do meio dia você a deve fazer num outro local, mesmo nos finais de semana, e procure manter a cozinha organizada. Levanto-me tarde e durmo cedo.
              - Ah! Sim, acrescentou a velha senhora, não permito visitas. E a sala de estar é só para mim e mais alguém que eu deseja receber. Tem alguma objeção a fazer?
              - De forma alguma, respondeu Ícaro, para mim está ótimo.
              Tratou de instalar-se no quarto, organizando suas roupas no armário, alguns livros numa pequena estante. Havia ainda uma escrivaninha que carregava consigo a qual acomodou junto à janela, que quando aberta era possível avistar alguns prédios da cidade, ao longe.
               Tirara o dia de folga no trabalho. “Hoje não vou para a faculdade”, refletiu consigo próprio, “descansarei o resto do dia”. Tratou de tomar um banho e ficou um tempo a contemplar a paisagem da cidade na janela. O acesso ao banheiro dava-se por um corredor estreito. Havia uma porta à direita da de seu quarto. Era o aposento da velha senhora. Do lado esquerdo do corredor havia prateleiras repletas de livros. Ao final do corredor, de frente com a porta de seu quarto ficava a do banheiro. Havia ainda uma porta lateral junto à escada, era um dos quartos ocupados por um dos outros hóspedes.
              Instalou-se Ícaro ali e considerou ser o melhor local que já morara. Aos poucos habituou-se à rotina da casa. Pouco cruzava com os outros dois hóspedes, E o fato de não poder receber ninguém não o incomodava.
             O tempo foi passando, e com ele cresceu a curiosidade de Ícaro quanto à pessoa de sua senhoria. Perguntava-se a si próprio qual o motivo de uma senhora já a beira dos oitenta anos, exigir exclusividade em sua sala de estar. Indagava-se ainda da possível viuvez da velha e existência ou não de filhos. Às vezes pegava-se mesmo cismando: “esta casa na certa lhe pertence, deve possuir boa renda essa senhora. E por que a exclusividade da sala de estar? Na certa recebe em sua casa visitas?”
            E assim começou Ícaro a alimentar uma verdadeira obsessão em desvendar aqueles mistérios. Queria saber tudo da vida de sua senhoria.
            Os finais de semana via-se obrigado a sair. Do contrário ficava retido no quarto. Uma vez que não podia convidar nenhum amigo para ir até o local, não tinha mesmo com quem trocar palavra.
            Seus dois relacionamentos mais próximos era com Deise e Rodrigo.
            Ícaro já conheceu Deise namorando Rodrigo, o que não impediu que se apaixonasse por ela. Chegando mesmo a declarar-se. E guardando para si a revolta de ter no amigo um rival. Este jamais suspeitou de nada.
            Havia outros colegas, bem como conhecia outras moças, mas insistia em alimentar o sentimento de paixão pela namorada do amigo. Não era raro inclusive assediá-la:
            - Durma comigo e você verá. Faço esquecê-lo em uma noite. - Isso provocava verdadeira aversão por sua pessoa na moça. Apaixonada que era pelo namorado, ficava ela sempre num verdadeiro dilema: “se conto alguma coisa ao Rodrigo, ele pode interpretar-me mal, pode achar que sou culpada pelos assédios”, sendo assim permanecia calada.
            Era da natureza de Ícaro a vaidade e a soberba. Não conseguia suportar a idéia de que a moça preferisse o amigo a ele. “Afinal”, ponderava, “o fulano não passa de um rapaz desengonçado: raquítico e incapaz de passar sem aquele par de óculos de aros pretos, que o torna ainda mais sem graça”.
            E assim alimentava esperanças em relação ao rival. E o relacionamento com outras moças era sempre superficial.
            Transcorria o tempo sem novidades na vida daquele trio formado por Ícaro, Deise e Rodrigo. Ícaro, indiferente, já sem alimentar qualquer sentimento mais profundo pela moça, nem assim desistia de conquistá-la. Ela, por sua vez, permanecia fiel ao namorado. E este ingenuamente nunca suspeitou de nada.
             Como disse Ícaro era vaidoso e, portanto buscava manter uma aparência conivente com seu estilo de vida. Dava-se às vezes a extravagâncias financeiras, que o conduziam a estar sempre insatisfeito com sua renda. É de espantar-se que não recorresse a empréstimos. Ora eram roupas novas, ora eram farras com outros rapazes.
              Outras vezes presenteava Deise e Rodrigo, chegou a presentear até mesmo a senhoria. Afinal, tinha um interesse secreto em lhe agradar, e assim desvendar o  mistério que envolvia a velha e excêntrica senhora.
               Certo dia, na véspera de um feriado, Ícaro acordou um pouco mais tarde que o de costume. Ao descer para tomar o café da manhã. Quando atravessava o corredor, deparou-se com a porta do quarto de Dona Guiomar semi-aberta. Procurou olhar pela fresta, e ouviu a respiração da velha que ressonava. Deu de ombros, e foi direto para a cozinha, tendo que necessariamente passar pela sala. Neste dia em especial ao contemplar aquela sala sempre de uma limpeza impecável, com seus móveis embora antigos sempre lustrados. Estantes repletas de livros, se deu conta do que considerou mais uma das excentricidades da velha senhora. Não havia televisão, nunca se dera conta disto. Só a um canto junto a um abajur, um aparelho de rádio.
               Intrigado com a quantidade de livros nas estantes. Não atinava com que propósito uma velha acumulara tantos livros. Percorreu a vista pelas prateleiras para ler as lombadas livro a livro. Intrigou-se mais ainda ao dar-se conta que, em grande parte, tratava-se de obra raras e de valor. Obras de literatura, filosofia, a maioria romances diversos, no entanto nos idiomas de origem dos devidos escritores. Havia um ou outro exemplar de menos destaque. Alguns poucos volumes que abordavam mesmo assim assuntos específicos como: jardinagem, ervas curativas, e até alguns didáticos, no caso de medicina.
               “Não é possível. Como acumulou essa velha essas raridades”. Indagou Ícaro consigo próprio. Este fato levou o rapaz a concluir que, a velha senhora, senão era, já fora alguém de posses. Na certa rica. “Quem sabe não deixou para traz algum parente ou mesmo um marido que lhe legou alguma fortuna. E por avareza mantinha-se naquela casa antiga e pouco significante”, questionou-se ele consigo próprio.
               Precisava dividir aquele mistério com alguém. Alguém de sua confiança. Tomou o café, lavou a louça que sujara, deixando a cozinha organizada. De acordo com o trato feito. Depois passando pela sala estacou. “Devo ter alguma coisa comigo, algo que faça com que creiam naquilo que estou deduzindo”.
               Tomou de uma cadeira, das quatro que rodeavam uma mesa de madeira do mobiliário da sala. Subiu nesta e alcançou um volume que considerou de destaque: “QUO VADIS” em latim.
               Os livros reuniam-se tão próximos uns aos outros que a proprietária nem daria conta pela sua ausência, concluiu ele consigo.
                Marcou então do telefone da sala, do qual podia fazer uso, um encontro com o amigo Rodrigo. Decidido estava em dividir com este o mistério que sondara na vida da velha.
                Combinaram Ícaro e o amigo de se encontrarem naquela mesma noite por volta das oito horas. “O que farei até lá?” Indagou-se. Já extremamente ansioso de poder conversar com quem seria um possível meliante quanto aos planos que brotava em sua mente, de como dar cabo da vida da velha Guiomar.
                Encontraram-se num local pouco comum para o amigo Rodrigo. Uma praça consideravelmente bem distante do local onde morava Ícaro e dividia despesas.
                Ícaro mal o cumprimentou e foi logo exclamando:
                - Trago-lhe novidade e das boas!
                - Ora essa, não é possível que enfim decidiu-se a parar de se reclamar da vida. O que houve? Ganhou uma bolada, ou foi premiado em algum concurso? – Sugeriu Rodrigo com certa ironia.
                Ao que Ícaro respondeu:
                - Quem dera... No entanto creio que estou a conseguir algo semelhante.
                - Como assim? – Retrucou o amigo.
                - Veja isso. – E passou-lhe o volume encadernado em capa escura e um dourado esmaecido no título.
                - “QUO VADIS”, e em latim! Onde diabos você conseguiu essa relíquia?
                - Primeiro – Acrescentou Ícaro – Quero que me jure que guardará segredo sobre o assunto. Fica entre nós dois e mais ninguém certo?
                - Certo pode confiar em mim.
                Nisso chega Deise que, beijando Rodrigo no rosto toma assento junto ao namorado. Ícaro sente-se perturbado, não porque teria que interromper o assunto que iniciara, mas sim por ter a moça junto a si.
                 - Rodrigo, como deixou de me dizer que Deise também viria? – Inquiriu descaradamente.
                 Convencido de que a moça não participara ainda seus assédios ao outro. Na certa se tivesse feito nem ele, nem ela estariam ali.
                 Cogitou então em seu coração que, sem dúvida, se Deise renunciasse a Rodrigo sua felicidade seria completa, bastando para isso, conseguir outro que lhe servisse de instrumento, para dar cabo a seus planos em relação à senhoria.
                 Rodrigo entusiasmado com a chegada da namorada, de prontidão passa para ela o volume do “QUO VADIS”  que estava em suas mãos exclamando:
                  - Veja só!
                  - De onde saiu isso? – Indagou a moça.
                  Rodrigo toma a dianteira e diz:
                  - Retirei na biblioteca da cidade. E tomou o livro das mãos desta.
                  - Não sabia que você entendesse o latim tão bem assim para ler uma obra como esta.
                  Ao que Ícaro então acrescentou:
                  - Há muitas coisas que você não sabe sobre mim, mas... É melhor mudarmos de assunto. E então para quando sai o casamento?
                  Rodrigo olha par Deise e responde:
                  - Basta que ela defina a data.
                  - Já lhe disse que só depois de nos formarmos. – Acrescentou Deise.
                  Ícaro dá-se conta que não seria possível expor o plano para o amigo naquela noite. Sabia perfeitamente que agora os malditos ficariam juntos, conversando na certa, mesmo depois que se retirasse, sendo assim disse somente:
                  - Já vou indo. Vou deixá-los à vontade.
                  - Ora essa, desde quando você é inoportuno para nós? Não é mesmo meu bem? – Acrescentou Rodrigo, desta vez dando um leve beijo nos lábios da moça.
                  “Aos diabos com esse Rodrigo”, pensou Ícaro consigo próprio. “Hei de passar bem sem ele e, ainda assim, levar a cabo meus planos quanto à velha Guiomar”, e levantando-se despediu-se:
                  - Já vou indo, preciso descansar. E retirou-se.
                  Ao regressar para a pensão não conseguia tirar de sua mente o rival beijando Deise. E então começou a engendrar um plano que seria inda mais eficaz. Haveria de conseguir as duas coisas: a mulher que amava e a fortuna de sua senhoria.
                  Passaram-se os dias e Ícaro sentia crescer em si de que triunfaria em seu propósito. Seu plano era agora liquidar dois, não mais só a senhoria como também Rodrigo.
                  Primeiro concluiu que deveria agir sozinho. Desistiu da ideia de um possível aliado. A velha Guiomar seria fácil liquidar, já tramara consigo um plano, pelo qual sairia a salvo sem despertar qualquer suspeita. O problema maior era dar cabo de Rodrigo, ainda sem que tivesse para si o amor de Deise.
                 Essa possibilidade o deixava irado. Envaidecido de si, continuava a alimentar um sentimento obsessivo pela moça. E decidiu consigo que se Deise não fosse sua, também não seria de mais ninguém.
                 Optou então deixar de lado por algum tempo os estudos. “Tranco a matrícula na faculdade de engenharia. Direi que preciso que preciso de um tempo pois sinto-me stressado. Então terei uma forma de como pensar com mais calma e cautela. Como ter Deise comigo e dar cabo de Rodrigo”.
                 Precisava Ícaro certificar-se de que realmente sairia lucrando com a morte da senhoria. “Não basta um mundo de livros antigos, estou certo de que a velha é rica e possui dinheiro. Devo ser cauteloso e investigar o assunto”, pensou ele consigo.
                 Trancou a matrícula na faculdade e agora dispondo de mais tempo, passou a observar os hábitos da velha Guiomar. Já se dera conta de que ela, se recebia algum valor por direito de pensão por viuvez ou algo do tipo, alguém devia providenciar que o dinheiro lhe chegasse em mãos, pois não arredava os pés de casa. Por vezes ia até um mercado próximo onde fazia compras. E quanto a seu dinheiro e dos outros dois hóspedes, na certa guardava consigo em casa. Foi o que deduziu.
                  Seu plano para dar cabo da velha tornara-se simples a partir do dia que pegou-a na cozinha à noite antes de ir dormir, tomando certo medicamento que percebeu logo tratar-se de algum tipo de barbitúrico.
                   “Eis aí minha chance”, pensou Ícaro. “Basta que sirva a ela uma dose letal do medicamento e estará liquidada a questão, mas antes tenho que descobrir onde a endemoninhada guarda o dinheiro. Em que banco na certa está depositado”.
                    Foi quando o destino lhe abriu as portas. A velha avisa aos hóspedes que terá de ausentar-se por alguns dias.
                     - Viajo para visitar um parente na próxima sexta-feira e na segunda estarei de volta. Sei que passarão tranquilamente sem mim. A faxineira ficará à disposição dos três durante minha ausência.
                    Dada a comunicação numa reunião que fez com os três hóspedes na tarde do domingo precedente, na sexta-feira da mesma semana viajou.
                     Ícaro pode então com a ausência da proprietária percorrer a casa e foi no quarto dele que encontrou o que já sabia de antemão deveria ocultar-se ali. A velha deveras além de conservar considerável quantia em dinheiro numa mala surrada, encontrou também joias numa caixa no interior do seu guarda-roupa.
                     Seu entusiasmo foi tamanho que tratou logo de conseguir com um médico receitas do barbitúrico que dona Guiomar fazia uso. Encontrou um vidro dos comprimidos na gaveta de seu criado-mudo. Bastou passar por um médico, alegar insônia, acrescentou que já havia sofrido do mal antes e que tomara aquele devido remédio.
                    O médico lhe emitiu a receita do remédio. “Passe o suficiente para uns dois meses doutor”, suplicou ele, “sinto que isso pode arrastar-se por longo tempo”.
                     Pronto, parte de seu plano já estava prestes a consumar-se. Exultava consigo próprio com a ideia de ver-se rico do dia para a noite. Isto bastando eliminar uma velha, que ninguém jamais suspeitaria que o coração deixara de bater por overdose de comprimidos para dormir.
                    Faltava agora conseguir uma solução para o que se tornava certo. Levar a cabo o assassinato. Porém, como conseguir Deise para si? Rodrigo era obstáculo rumo a que esta viesse a aceitá-lo em sua proposta de amor já declarado. Como ter seu sentimento correspondido era questão séria?
                    Turvou-se então seu coração. E ele pôs-se a se maldizer da vida: não tinha dinheiro, nem a mulher que desejava. E pior, nada lhe garantia que teria um amor se se tornar-se rico.
                    Mesmo assim tomou providências de economizar algum dinheiro com o qual haveria de adquirir a arma de fogo com a qual daria cabo de seu rival.
                     Tentou Ícaro então quando de seus encontros com ela, convencer-lhe de seu amor, argumentando inclusive que estava para melhorar de vida, independe inclusive de concluir seu curso de engenharia.
                     Dizia ele:
                     - Você nem sabe... Tenho trabalhado muito, economizando há anos. Já possuo o suficiente para comprar uma casa para nós, isso, caso você aceite minha proposta. Porém ela se mantinha irredutível.
                     Por vezes chegou a pensar em, eliminando Rodrigo, eliminar também a ela. Consumia-lhe a idéia, de sabê-la nos braços do outro.
                     A velha Guiomar voltou de viagem. Ícaro adiava seus planos. Encontrava-se em verdadeiro impasse o coitado. Fora esperto trancando a faculdade, pois não tinha cabeça para nada. Só pensava em como livrar-se da velha e de Rodrigo.
                    Decidiu então quanto à senhoria agir da seguinte forma: dissolveria certa quantia de barbitúrico adquirido num copo de leite e proporia que tomasse ela o leite morno antes de dormir. Quanto a Rodrigo, conduziria ele a algum lugar, um local deserto e usando da arma de fogo que adquiriu poria fim à vida do rival.
                    Passavam-se os dias e Ícaro passou a ter o hábito de longas caminhadas ao anoitecer. Como não ia mais à faculdade dispunha de tempo para isso. Nessas caminhadas seu pensamento era um só: “Fico rico e seja lá a que custo for terei Deise para mim”.
                    Porém, embora não lhe faltasse coragem em eliminar dona Guiomar e o amigo, temia a recusa da moça a seu amor após, concluída sua trama.
                    Passados vários dias de profunda angústia e ansiedade, Ícaro decidiu-se a por em prática o planejado.
                    Era uma segunda-feira. Voltou do trabalho direto para a pensão. Dona Guiomar embora acordasse tarde, tinha por hábito recolher-se cedo. Haveria de pegá-la na cozinha onde já a presenciara tomando o citado remédio antes de subir para o quarto e recolher-se. Bastava ser gentil e oferecer-lhe o copo de leite morno com a overdose do barbitúrico.
                   Como previra ele, mal adentrou a casa, deu com a velha que lhe saudou:
                   - Chegou cedo hoje Ícaro.
                   - Estou sentindo-me cansado dona Guiomar, nem me prolonguei conversando com amigos do trabalho, como costumo fazer. As tomando uma cerveja com eles ou coisa do tipo. A senhora já jantou?
                   - Janto agora. - Respondeu a velha senhora.
                   - Bem, vou acompanhá-la. Preparo meu jantar e conversamos um pouco na cozinha.
                   - Ótimo. Consentiu ela.
                   Ícaro tomou do leite que fazia parte de seus mantimentos na cozinha da velha senhora e disse:
                   - Vou tomar um leite quente. A senhora aceita?
                   - Não, muito obrigada, não costumo tomar leite.
                   A atitude da velha pegou o rapaz desprevenido. Irritado com o que ouvira indagou desta simplesmente:
                   - Os outros dois hóspedes estão em casa?
                   - Não, respondeu a senhoria. – Devem chegar depois das oito como de hábito. Pelo menos o que não estuda.
                   “Velha maldita pensou Ícaro consigo, levarei a cabo meu plano ainda que  tenha de eliminá-la com minha arma de fogo. Depois rapidamente pego o dinheiro e as joias e caio fora”.
                    Sentou-se então à mesa junto a Guiomar e, embora sem fome, acompanhou-a no jantar tomando um chocolate quente e comendo sem vontade um sanduiche de presunto.
                    Era cedo, não dera ainda sete horas. E ele tomado de sangue frio, refletiu: “Bela coisa fiz adquirindo aquele revólver. Dou o tiro abafando com o travesseiro o rosto de D. Guiormar. Saco da fortuna e caio fora”.
                   - Boa noite Ícaro – Disse a velha senhora. – Sai ainda hoje ou não? – acrescentou.
                   - Não – Respondeu ele – Após a refeição tomo um banho e vou repousar.
                 - Até amanhã então! – Atravessando a sala rumo à escada que conduzia aos quartos.
                - Até amanhã! Retrucou Ícaro meio intranquilo.
                Mal Guiomar deixou a cozinha, olhando ele o relógio deduziu: “Não preciso esperar mais que quinze minutos e a maldita velha cai no sono”.
                Subiu então silenciosamente para o quarto tomou da arma e pôs-se a ouvir cauteloso próximo a porta dos aposentos da velha, que costumava ressonar alto mal caia no sono. Reinava silêncio absoluto. Assim que ouviu ele o ressonar de Guiomar que caíra no sono rodou a maçaneta da porta do quarto e, passo a passo, aproximou-se da cama. Tomou de um travesseiro que havia ao lado de Guiomar na cama de casal e, de súbito, com uma das mãos apertou-o contra o rosto desta, com a arma na outra mão.
                 A velha debate-se e num gesto repentino acerta a mão de Ícaro. Ergue-se da cama, e este deixa escapulir de suas mãos a arma.
                 Ergue-se a velha da cama e em brados exclama:
                 - O que é isso! E acende a luz do abajur.
                 A arma jazia aos pés de Guiomar. Levanta os olhos. Ícaro tomado de pânico recuara alguns passos.
                 A velha sem hesitar, toma do revólver e desfere um tiro que atinge Ícaro na cabeça.
                  O pobre diabo tomba com o corpo despencando próximo a uma poltrona que havia no quarto.
                  Guiomar recupera-se do susto, desce à sala e liga para a polícia.
                  Dois dias depois, no cemitério, aos pés da cova preparada para Ícaro, derramavam lágrimas de dor Rodrigo e Deise.



FIM

                     
      

    

                 
              




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