UM CONTO : PIEDADE - 26/08/2019
“SANGUE
DO MEU SANGUE”
Abel jamais pode compreender porque carregava consigo aquele nome.
Aliás, o nome é algo que de certa forma só serve mesmo como um distintivo. Uma
forma de identificação. Talvez se chamasse Abel porque seus pais, obviamente
rejeitaram a possibilidade de Caim.
Conhecera um Baco. E isso de certa forma o
conformou. Pois na verdade, se tivesse que atribuir a si próprio um nome, este
seria como o de Baco, um nome pagão.
Ainda que possa parecer ingenuidade para um rapaz já feito, com mais de
vinte e um anos, indagar de si próprio a intensidade de seus desejos. Ou
transitar da culpa ao remorso, da aceitação para a repulsa, no que diz respeito
ao sexo. Essa era a marca indelével que trazia consigo. E se debatia e digladiava
com Deus e o diabo, impossibilitado de conciliar-se com o que há muito definira
como um mal necessário.
Logo ao sair da infância, quando nos apercebemos que se deve ocultar dos
demais muito do que está em nós enraizado ou sedimentado, e o ocultamos
justamente porque não há pretensão em nós de renúncia. Logo aí, teve início o
dilema de Abel. Ele como creio aconteça com poucos, não considerou o pulsar
dos instintos como parte integrante de
sua natureza. Ao invés disso desconsiderou o que já sabia inevitável, excluir
de si o anseio pelo sexo.
Agora, já adulto, sentia-se impossibilitado de atar vínculo entre seus
sentimentos e seus desejos. Para Abel, a paixão e o amor, ou uma simples
afeição, ou ainda um sentimento de amor fraterno, era o esteio único pelo qual se
devia trilhar os caminhos da vida. Talvez aspirasse quem sabe a santidade? Só
posso garantir que, logo no raiar de sua juventude, justamente por essa sua
característica citada. Sentiu frustrar-se em seu íntimo o que almejava para si,
e o que talvez haveria de conduzi-lo à possibilidade de dias felizes.
E por curioso, o que primeiramente priorizou, foi casar-se e ter um
filho. Acreditava ser dotado de idéias originais. Ser senhor de ideais
sublimes, os quais transmitiria ao filho. O casamento era algo sagrado e o
caminho pelo qual haveria de amansar o que de início foi citado como seu
tormento, o sexo. Pois lá nos recônditos de sua alma, sabia que se concedesse
rédeas soltas ao que seus instintos exigia despencaria no caminho dos
libertinos. E entendia bem e deu-se conta logo na adolescência de seu caráter
propenso à indolência e à imoralidade. Discrepante na religião, destemido para
com o lado sombrio que cada homem conhece bem e sabe que carrega consigo.
Foi assim que se decidiu por um casamento que considerou conveniente, e
até mesmo apropriado. Imaginou consigo que a castidade da noiva e, porque não
dizer, sua religiosidade, o conduziria a manter-se de acordo com os parâmetros
de um homem correto, digno de aplauso social.
Vilma, a moça escolhida, era o tipo comum de mulher. Daquelas
convencidas de que o casamento é algo irremediável para se mover com maior
segurança na escala social. Encontrou pois no elegante, rico e aparentemente comedido Abel, o homem ideal.
Três meses após o casamento, Vilma engravidou e deu à luz a um menino
que recebeu o nome de Gabriel, escolhido pela mãe.
Abel se viu em júbilo. Recebeu em casa os amigos seus e da esposa e
comemorou o advento de seu rebento.
E transcorreram-se alguns anos e o garoto se desenvolveu e era motivo de
alegria para ambos. Cercado de carinho, o pequeno Gabriel permaneceu filho
único e senhor portanto da atenção exclusiva não só dos pais, como dos avós e
tios.
Ao completar os sete anos, Abel e Vilma resolveram marcar a data do aniversário
do filho com uma recepção especial, enviando convites, reunindo os amigos todos
e seus filhos. Além dos familiares de ambos.
Naquele ano, regressava do exterior um cunhado de Vilma o qual Abel
ainda não tivera a oportunidade de conhecer. No dia da festa, estava o moço
presente e Vilma tratou de apresentá-lo ao marido, assim que este atravessou a
porta, com sua irmã que comparada a ele excedia em encantos. Senhora de um
corpo esguio e seios como que esculpidos, conjugava esses atributos com um olhar
radiante e uma face sem dúvida mais encantadora que a de Vilma.
Abel saudou-o, e elogiando-lhe a bela esposa, tratou de encaminhá-lo
para junto do grupo de amigos com o qual travava conversa já há algum tempo.
Exploravam um tema controverso, trazido a baila pelo próprio anfitrião: “se o
incesto se constitui em algo tão antigo e abominável à Deus e a humanidade, de
que forma se dera a marcha da própria humanidade, no que diz respeito ao homem
primitivo e tribal, senão apelando para esse pecado primeiro. E acrescentava
ele pondere-se que até hoje é o homem capaz de tropeçar nesta iniqüidade”. Esse
assunto foi tema de especulação por longo espaço de tempo.
Abel então percebeu o copo do marido de sua cunhada vazio e ofereceu-se
para providenciar outra bebida. Foi em direção ao jovem que servia os
convidados e deslizou o olhar pelo ambiente à procura da esposa. Foi
encontrá-la junto ao holl de entrada da casa, conversando com um rapaz que Abel
desconhecia. Preferiu não intervir e regressou ao grupo que já deixara de lado
o tema enfadonho, imposto por este, e partiram para outro.
Chegado o momento de cantar os parabéns a Gabriel, todos se reuniram ao
redor do bolo de aniversário com as sete velinhas acesas e aplaudiram a criança
tão ambicionada por Abel. O qual inclusive sentiu os olhos rasos d’água quando
o filho inclinou-se sobre o bolo e apagou as velas.
Um a um os convidados foram se retirando, e lá pelas dez da noite,
restava na casa o marido, sua esposa, o citado cunhado, a irmã de Vilma e o
enigmático rapaz, com quem esta persistia numa conversa para Abel já por demais
prolongada.
Na manhã seguinte não pode conter sua curiosidade e indagou da esposa
quem era o jovem que prendera sua atenção por quase toda a festa. Essa
simplesmente respondeu tratar-se de um velho amigo dos tempos de escola, que há
muito não via, e acreditava inclusive que apesar de seu convite não
comparecesse à festa.
Para Abel, a quem o sexo fora motivo de tanto dilema como foi dito no
início, isso não impediu que ele passasse a ver e sentir em toda mulher um
motivo, ou ímpeto de assédio, desde que fosse de uma idade próxima à sua. E o
mesmo ponderava consigo acontecer com todos os homens sem exceção. Passara uma
régua sobre essa questão, pautado nas suas experiências da pré-adolescência à
faze adulta. Julgava que todos descaradamente, fosse lá por que vias fosse,
dava vazão a seus estímulos sexuais, principalmente os homens. E tinha como
idéia pré-concebida que todos se consistiam em farsantes no tocante ao sexo.
Uma vez que jamais pode excluir a possibilidade de concretizar suas
fantasias eróticas, já que âmbito social em que se incluíra isso impedia ,
concluiu daí que ao homem é impossível estabelecer uma conduta que não o subjugue
ao império dos sentidos.
E desta forma, tudo quanto aspirava, no tocante à possíveis virtudes,
legava ao abandono dos princípios morais. E assim desprezou por todos os seus
dias todo e qualquer princípio religioso. Não exitou de, perante ao fato de não
podendo possuir todas as mulheres que dele se aproximavam, entregar-se a
prostituição mesmo após o casamento.
O intrigante em seu comportamento é que logo após uma visita à uma casa
noturna ou bordel, lavava o que possivelmente seria por traição, com um orgasmo
no leito conjugal.
E assim transcorreram-se mais cinco anos de
casado e, já que sua esposa não lhe dera nenhum outro filho, cobriu de mimos o
filho único. Bem como deixou a educação deste a cargo da esposa. Aquilo que lá
atrás considerava trazer consigo enquanto um possível ideal a transmitir para o
filho que ambicionara; ficou esquecido no passado.
Certa manhã aconteceu regressar para casa mais cedo, fora do horário
habitual. Ao adentrar pela porta, deparou-se com Vilma e o citado amigo que
conhecera na festa, a conversarem
alegremente na sala. Pode ouvir logo da soleira da porta, os risos da esposa e
a voz tranquila e envolvente do rapaz, que na certa em muito agradava a mulher.
Aquilo foi como um ferrão de um inseto venenoso a cravar-lhe a carne. E logo
ele que tinha todos os homens como que a orbitar na mesma esfera de
comportamento que a sua, não pode conter o inevitável. Um ciúme ardente varreu
com suas labaredas a alma. E um ódio profundo apossou-se dele contra não só quem
deduziu ser já o amante de sua mulher, bem como dela própria.
E num lapso de tempo, tomado de ira, decidiu que haveria de vingar-se
daquela mulher e de seu amante. Retirou-se em silêncio sem deixar-se ser visto
pelos que o atraiçoavam.
Dirigiu-se à uma loja de armas e comprou munição para um revólver
que possuía. Em seguida olhou no relógio
e certificou-se do horário em que o filho saia da escola. Faltavam poucos
minutos. Fez o percurso até a escola e estacionou. Logo divisou Gabriel dentre
os outros garotos. “Vilma já deveria estar aqui”, pensou ele, “maldita seja”.
Pegou do telefone e ligou para mulher, que espantada ao reconhecer sua voz do
outro lado da linha, disse que fosse breve, pois estava atrasada para pegar o
filho na escola.
Abel, com voz firme disse a ela que não seria necessário, pois ele havia
saído do trabalho a tempo de pegar o filho e já estava a caminho de casa. Esta então acrescentou que estava ótimo, e uma
vez que tinha visitas seria breve, desligando em seguida o telefone.
Abel chamou o filho em voz alta de dentro do carro. Gabriel correu em
direção ao carro do pai e acomodou-se no banco traseiro, murmurando
simplesmente que esperava pela mãe como sempre. Ao que o pai disse que não se
preocupasse pois eles estavam indo para
casa. Sua mãe não pudera vir. E naquele momento já delineou como consumar
aquela situação absurda. Ali estava ele com seu filho, de doze anos, sangue do
seu sangue. Enquanto a esposa se deleitava com outro na certa já há um bom
tempo e talvez certamente debaixo de seu teto.
Dirigiu-se rumo ao que para ele de lar passara a antro, e mais uma vez o
ódio lhe subiu ao coração, dessa vez contra o destino, contra Deus que
permitira tudo aquilo.
Estacionou na frente de sua suntuosa residência. Pegou o filho pela mão
e dirigiu-se para o jardim, onde tomou de uma rosa que avistou e entregando-a
nas mãos do filho, acrescentando simplesmente:
- Vá na frente e dê para sua mãe.- O garoto obedeceu.
Abel então deu a volta pelos fundos, entrou na casa e subiu até o quarto
onde se encontrava a arma. Carregou-a, e caminhando em direção à sala, ouviu
mais uma vez a voz do rapaz e os risos da mulher. A passos lentos pôs-se em
posição de confronto perante os dois com a arma em punho. Vilma soltou um grito
e levantou-se num sobressalto, levando no peito os dois primeiros tiros. Em
seguida, o rapaz que boquiaberto tentou balbuciar alguma coisa recebeu os
próximos disparos. Caindo os corpos de ambos um próximo ao outro.
Gabriel que se encontrava na sala, permaneceu quieto em seu canto,
enquanto Abel, aproximando-se alguns passos do filho, disparou neste uma última
bala.
Sacrificou assim aquele homem, o próprio filho, que julgou um dia seria
a realização de seu anseio enquanto criatura digna de alguma dádiva divina.
Mais tarde, para tormento seu, tomou conhecimento de que o rapaz que
matara era comprometido com outra e além de amigo de Vilma, era íntimo de
outros familiares.
Foi condenado em tribunal, e cumpriu
sua pena, na certa sem grandes remorsos.
FIM

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