QUANDO O SOL SE PÔR
De todos os
momentos de meu dia, o que sempre mais me encantou foi o pôr do sol. Mesmo
quando voltava do trabalho, no roteiro a pé, ou ainda dentro do carro ou do
ônibus. Permitia-me fixar os olhos no horizonte e contemplar o declínio do
astro rei.
Recentemente a
vida se apresentava a mim sem grandes alegrias, e sentia-me mesmo desmotivado.
De algum modo não conseguia alegrar-me, ou ainda encontrar entusiasmo na rotina
do dia a dia.
Já fazia tempo
que transcorriam os dias sem nenhuma novidade, e tudo parecia mesmo
melancólico, quase que de desestimulante. Era com esforço e afinco, em parte,
tomado por uma grande parcela de desânimo que lutava para não desistir do
trabalho, dos amigos, dos companheiros de jornada.
Num final de dia
como outro qualquer, decidi fazer o caminho do trabalho para casa a pé. Caminho
um pouco longo devo admitir. Enquanto caminhava meus pensamentos eram
dispersos, quando não insidiosos em conduzir-me a refletir no que fazer para
tornar mais alegre minha vida, mais divertidos meus dias.
Ultimamente
vinha-me muito em mente a ideia de que precisava de certo modo combater uma
solidão que percebia se acercava de mim. E, enquanto percorria o caminho passo
após passo, divagava num turbilhão de pensamentos que me ocupavam a mente e
quase que me doíam no coração.
Era jovem, ainda não chegara aos trinta anos. E toda aquela sensação de desolamento perante a vida de certo modo assustava-me. Na verdade o que me parecia acertado era que eu, assim como a grande maioria de meus amigos, bem como a massa de modo geral, levasse seus dias sem indagações como as que eu fazia a mim mesmo. Coisas do tipo: qual o real significado do que estou fazendo da minha vida, o que deveras devo buscar para preencher meu tempo livre, e que valha a pena eu me aplicar rumo a ter preenchido o terrível vazio que me ronda e me amedronta.
O que sei é que
quando menos me dei conta estava já próximo ao portão, sem nem perceber a longa
distância que percorrera.
E assim os dias
transcorriam de modo inalterados, monótonos, sem novidade alguma que os
diferenciassem uns dos outros. Os finais de semana eram preenchidos pela rotina
de assistir TV, passear pela praça, tentar levar adiante a leitura de um livro.
E então a vida
começou a se me tornar num princípio de desolamento, uma tristeza inusitada
insinuou-se e tive comigo a certeza que
precisava pedir socorro a alguém.
Pensei que
precisava buscar me divertir com os amigos, quem sabe arrumar uma namorada,
talvez isso era o tempero que estava faltando em meus dias. Porém não
encontrava em mim motivação para acercar-me de ninguém. Não havia o que dizer,
nem tão pouco acreditava eu que havia do que lamentar-me, eu por meus próprios
esforços deveria arejar as ideias, renovar os pensamentos, reencontrar a alegria
da vida que se distanciou de mim.
A única coisa que
permanecia inalterável era meu gosto em contemplar o pôr do sol. Isto era
inalterável. E então fui tornando-me a cada dia de forma recalcitrante mais
apegado a minha solidão, a qual se me maltratava, ao menos não fazia de mim um
homem intratável para com os demais.
Carregava em meu
íntimo uma esperança vaga de que aquilo nada mais era que uma fase de vida que
estava vivendo, que tudo mudaria em breve. E se ora aparentasse eu acompanhar a
vida como se meu próprio cortejo fúnebre, em breve estaria a festejar dias
alegres.
Eis que certa
manhã sai de casa para o trabalho e fui pego de surpresa por uma chuva
repentina que me encharcou por completo antes que chegasse ao ponto de ônibus.
Indeciso, com as roupas molhadas, não sabia se seguia para o trabalho ou se
regressava para casa. Como não parasse de cair água do céu, decidi-me por fazer
o caminho de regresso para casa.
Ao adentrar minha
residência, estava tão ensopado que mal conseguia desvencilhar-me das roupas
molhadas. Despi-me na sala mesmo e fui em busca de um roupão no quarto para
agasalhar-me um pouco. Tiritava de frio, a umidade do ar me penetrava os
pulmões. Derreei-me por um tempo numa poltrona e sem dar-me conta adormeci.
Não sei por
quantas horas permaneci adormecido. Despertei repentinamente, tomado por uma
tosse repentina e seca que me causava pigarro na garganta. Tentei me erguer
pensando em ir até o banheiro e tomar um banho, no entanto sentia um desanimo
terrível, e um frio descomunal.
Com muito esforço
consegui chegar até o quarto e atirei-me na cama. Lá fora a chuva cessara e o
sol começava a brilhar.
Deveria ter
dormido muito pois ao contemplar o sol pela janela do quarto já estava próximo
de se por no horizonte. Preciso de um
médico pensei eu. Por outro lado, sentia-me tão tomado de topor e fraqueza
física que não me dispunha a procurar na agenda o telefone de meu médico.
Comecei a
sentir-me aflito, pois em breve o sol desapareceria no horizonte, viria a noite
e eu, faminto e enfraquecido enfrentaria uma noite difícil, porque não dizer
terrível. Sabia-me febril, e esmorecido não atinava no que fazer.
A escuridão da
noite chegou e com ela veio o cavaleiro de armaduras medievais, que adentrou do
nada meus aposentos. Desembainhou a espada e proferiu com voz de trovão:
- Reclina-te
para que eu te sagre ó misero covarde.
Sobressaltado
reclinei para o lado minha cabeça e a miragem desapareceu de meu ângulo de
visão. Principiavam os delírios da febre.
Com a cabeça em
maresia, quase não conseguia fixar pensamento algum, de modo a que reunisse
forças de buscar socorro. O sono vinha até mim, e transvaliava febril
encharcado no suor.
De repente o
relógio da sala de estar começou a bater as horas, como se fosse o sino de uma
capela distante. Já era madrugada. Devo
rezar pensei eu, pois desta na certa não escapo. Quem haveria de surgir para
socorrer-me desse meu estado debilitado. Na certa devo estar com uma pneumonia
repentina.
E então me veio
um pensamento claro e lúcido: não alcançarei o pôr do sol de amanhã. E uma
lágrima escorreu-me no canto do olho.
A noite
adentrava e eu permanecia deitado inerte. As janelas do quarto abertas tornavam
pior meu sofrimento,pois a brisa fria da madrugada, parecia querer congelar-me
as faces e as pontas dos dedos, no esforço de buscar
melhor agasalhar-me no cobertor.
E as horas se
passaram e devo ter adormecido por uns momentos. Deveras quando menos me dei
conta o branco do dia invadia o aposento. E então tomado por outro lampejo de
lucidez pensei comigo, não é possível que eu não melhore um pouco, o suficiente
para ao menos ver se faço uma ligação.
Foi quando me
veio um acesso repentino de tosse, e eu me senti extenuado tamanho o esforço
que fiz tentando erguer o mais que podia do travesseiro a cabeça.
Minha
respiração era cada vez mais ofegante. E eu os poucos pensamentos que me vinham
era de como conseguir uma tábua de salvação para aquela minha situação
descabida. Dormir me fizera recuperar um pouco as forças, mas não o suficiente
para me por de pé.
Meu estômago
doía, não comera nada desde a tarde do dia anterior. O relógio do criado mudo
acusava que em breve já seria oito horas. O sol invadia o quarto, porém era
como se fosse inverno, pois a febre que me acometia me provocava calafrios
constantes.
Então, abatido
e desolado, entreguei-me ao meu estado doentio. Meu corpo dolorido pela febre
que não me abandonava e aturdido pelos acessos repentinos de tosse, que
implicavam em verdadeira tortura. Vez por outra me vinha um princípio de
lucidez mais plena, mas que de nada me servia, a não ser para irritar-me comigo mesmo, diante de minha
própria impotência.
E o dia foi
passando e eu ali agonizando sentia comigo que não suportaria por muito mais
tempo aquele estado de debilidade. E voltando-me para a janela do quarto, pela
qual o sol costumava presentear-me com seu declinar maravilhoso no horizonte, rendi
graças ao ver que os raios principiavam já a desaparecer. O astro magnífico
ainda se mostrava em seu avermelhado. Sem aperceber-me, fui fechando minhas
pálpebras acompanhando o declinar do sol no horizonte, e então me veio um
último e suave pensamento, quando o sol se pôr terei eu fechado minhas
pálpebras para nunca mais... E o sol se terá posto para dentro de mim.
Dias depois me
encontraram morto em meu leito e foram cumpridas as devidas exéquias. Eu por
mim não compreendo porque me foi infligido um tamanho e repentino sofrimento,
porém estou certo de que morrer para esta vida e nascer para um sol que se põe
na promessa de um ressurgir para uma nova vida foi algo mesmo magnífico.
P.S. Peço mil desculpas a meus possíveis, pelo erro grotesco na redação do texto.
FIM



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