“O CONFLITO DE WAGNER”

        Quem seria capaz de deduzir que oculto por trás da figura daquele rapaz jovem, de família de classe média, belo e galanteador. Ocultar-se-ia algo para muitos, estou certo, talvez de natureza sórdida.
        Wagner conquistava a todos que dele se aproximava. Era senhor de um magnetismo, uma capacidade de encantar logo ao primeiro contato. Além de facilmente desmanchar-se em favores a qualquer um que dele necessitasse.
        Enfim, Wagner possuía amigos leais, companheiros quando seu intuito era só farrear, além de manter um bom relacionamento familiar e ter uma namorada encantadora.
        Frequentava ele algumas vezes inclusive a igreja com a família, além de ser alguém que não se eximia de praticar a caridade.

        Aos dezenove anos de idade, era senhor de uma conduta de homem feito. Enriquecido em cultura através de bons livros, o que contribuía para expor com clareza suas idéias, sem dúvida elevadas. Era pois, dotado de inúmeras qualidades às quais ofuscavam possíveis defeitos. Isso tudo fazia dele o tipo de rapaz do qual se poderia dizer: “este jovem possui personalidade”.
        Certa feita, Wagner convidou sua namorada para um final de semana na casa de seus tios que moravam numa cidade interiorana próxima a deles.
        Partiram numa sexta-feira à noite e no sábado pela manhã já desembarcavam do ônibus que os conduziu até o local numa viagem tranquila.
        Esperaram por algum tempo até pegarem um carro de aluguel que os deixou junto a uma casa modesta, porém de aspecto agradável. Wagner pagou o motorista e saltando com a namorada do carro, atravessaram uma trilha acimentada que conduzia à porta de entrada da casa.
        Wagner então, desprezando a campainha, bateu com o nó dos dedos na porta e aguardou.
        Um garotinho de seus doze anos foi quem atendeu às batidas. Wagner mal pôs os olhos no menino e sentiu em seu íntimo como que uma alegria, um encantamento pela figura do pequeno garoto.
        Os olhos fixos no menino, o coração a palpitar de forma como nunca acontecera antes, levou-o a assustar-se quando o pequeno gritou: “mamãe, tem gente aqui na porta”, e em seguida correu para o interior da casa.
        Logo veio à porta uma senhora com um avental axadrezado e um pano de cozinha no ombro. Era a tia de Wagner, que o reconhecendo, envolveu-o num abraço.
        - Quem é o garoto que me atendeu à porta? Não me diga que é o Fábio!
        - Sim ele mesmo, já está um rapazinho o seu primo não é mesmo? – retrucou a tia.

        Ao que Wagner assentiu com a cabeça, e agora, além do coração ainda palpitante, sentia as mãos úmidas de um suor frio repentino.
        - Não me apresenta a bela moça que o acompanha? – indagou a mulher a sorrir.
        - Ah! Sim, esta é Clara,
        - Muito prazer – disse a moça.
        - O prazer é todo meu – respondeu a tia de Wagner acrescentando, - mas não fiquem parados aí. Vamos, entrem. Aguardem aqui na sala, pois estou com um bolo no forno na cozinha.

        Wagner e Clara sentaram-se no sofá da sala da modesta casa, e aguardaram em silêncio.
        Não demorou muito para que um homem de aspecto debilitado, apoiado num destes aparelhos metálicos que auxiliam na locomoção adentra-se a sala.
       
        Tratava-se de Oscar, o tio de Wagner que, vítima de um acidente ficara com certa deficiência em uma das pernas, e preferia aquele aparelho à uma possível muleta para locomover-se.
        - Tio, deixe-me ajudá-lo – interpelou Wagner.
        - Não é necessário – respondeu o homem e aproximando-se de uma poltrona, com certa agilidade, soltou do aparelhou, e assentou-se nela.
        - Esta é Clara, minha namorada – disse o rapaz.
        - Encantado senhorita – foram as palavras do tio.
        Wagner então pediu licença a ambos e dirigiu-se para a cozinha onde se encontrava a tia. O aroma do bolo assando no forno inundava o ambiente. Aproximou-se da mulher pelas costas e abraçando-a carinhosamente, disse em seus ouvidos:
        - Que saudade, há quanto tempo não? Mas onde se enfiou o diabinho do Fábio?

        - Deve estar aí atrás no quintal. Na certa brincando com o cachorro e aguardando um pedaço de bolo.
        - Posso ir até lá?
        - Claro! – respondeu sua tia.
        Wagner deixou a cozinha e dirigiu-se para o quintal. Afastou algumas roupas que secavam estendidas num varal, e mais uma vez deu com os olhos no menino que brincava com o cachorro, atirando um pedaço de pau para que este lhe trouxesse de volta na boca,
        Permaneceu alguns momentos de longe, observando a inocente criança a divertir-se com o animal. Por um motivo ignorado, sentiu os olhos rasos d’água. E mais uma vez, seu coração bateu fora de ritmo, desta vez aos sobressaltos. Bem como, no lugar do suor frio nas mãos como antes, sentiu  suas faces arderem, como se o sangue lhe subisse à cabeça. E foi então que deu-se o que de fatal e inusitado Wagner não esperava. Um sentimento que jamais apoderara-se dele, emergiu e apossou-se de seu ser. Ali, na sua frente estava aquele garoto faceiro, com seu animal de estimação, tão belo e fascinante para ele, como uma rosa vermelha à ornar uma toalha branca por sobre uma mesa.
        Sentiu a paixão apossar-se dele, e por pouco não correu até o garoto abraçando-o e beijando-lhe o rosto.
        Estacou próximo ao varal por um momento e, dando as costas para o garoto retornou para a cozinha. Atravessou-a sem dar uma palavra com a tia e regressou à sala, retomando seu posto junto à Clara.
        Esta conversava com seu tio. Wagner tinha os pensamentos em maresia.
        - O que nos diz Wagner? Não é mesmo uma tolice achar que um homem só porque não pode mais se locomover sem um aparelho tornou-se um inválido?
        - Como disse?
       - Ora essa, você não está com a cabeça em marte,  está? Vou precisar repetir? – disse a moça irritada.
        - Perdoem-me, estava distraído, sobre o que conversavam? – foi a resposta do rapaz.
        A moça então continuou uma conversa animada com o tio do namorado, enquanto este  trêmulo,  percorria com os olhos o teto da sala.
        A tia de Wagner entrou então na sala e anunciou:
        - Venham para a cozinha, um bolo com café os espera.
        Os três tomaram lugar à mesa e o primo de Wagner atendeu prontamente ao chamado da mãe para que viesse comer do bolo.
        Assim que o menino ocupou a quarta cadeira da mesa Wagner, que já se servira de uma fatia de bolo e principiava a cortar um pedaço para levá-lo à boca com o garfo, deixa a faca escapar das mãos, indo o talher parar no chão.
        Clara desta vez, riu mesmo e disse:
        - Não estou dizendo, ele está com a cabeça no outro mundo!
        - Desculpem-me – foram mais uma vez as palavras do rapaz.
        Sua tia providenciou outro talher e todos comeram  o bolo. Menos Wagner, que não sabia o que fazer para manter o olhar distante do garotinho que devorava sua fatia de bolo, como se jamais houvesse provado guloseima mais saborosa.
        Wagner e Clara haviam chegado por volta das três horas da tarde, pois demoraram para conseguir o carro que os levou até os subúrbios da cidade onde moravam os tios deste. Terminado pois o café, o sol já estava próximo a se pôr.
        A tia do rapaz conduziu-os então para um quarto reservado para visitas e estes principiaram a desfazer a bagagem. Exaustos da viagem noturna decidiram-se por um banho antes do jantar.
        - Pode ir você na frente – disse Wagner.
        - Ótimo meu bem, estou mesmo exausta – disse Clara e saiu do quarto carregando uma toalha rumo ao banheiro.
        Mal esta cerra a porta, Wagner, dirigindo-se para a janela, contempla a noite que se aproxima, e uma solidão profunda invadiu-lhe a alma. Atirou-se numa das camas que havia no aposento e deu vazão a um pranto. Um pranto sufocado e dolorido. Todo seu ser convulsionava e por alguns minutos deixou que as lágrimas deslizassem por seu rosto, reclinado de lado no travesseiro sobre a cama.
        Com medo de ser surpreendido naquele estado, tratou de conter-se, e enxugando os olhos,  passou a manga da camisa no nariz, se recompôs e aguardou sua vez para o banho.
        O jantar transcorreu sem atropelos, ou seja, Wagner foi inclusive capaz de elogiar a comida da tia, e indagar da saúde do tio. Fábio dispensou a couve que sua mãe insistia em pôr em seu prato, bem como não quis a fruta que esta ofereceu. Ao invés disso, insistiu em mais um pedaço de bolo e em seguida retirou-se.

        - Ei, não vai dar boa noite às visitas? – interpelou a mãe em voz alta.
        - Boa noite – murmurou o menino e desapareceu rumo ao quarto.
        Os demais não tardaram também em recolher-se.
        Um relógio antigo na parede da sala cadenciava as horas, quando Wagner tomado de insônia, cautelosamente deixou o quarto e foi sentar-se numa das poltronas da sala.
        O conflito que vivenciava era tão pungente que quanto mais buscava afastar de si os pensamentos do dia que transcorrera, mais viva se fazia a figura do pequeno primo, com seus olhos azuis e cabelos cor de fogo.
        Foi até a cozinha, bebeu água, esquentou um pouco de leite, tomou e voltou para o quarto. Passado alguns instantes adormeceu.
        No dia seguinte pela manhã, foi o último a tomar lugar à mesa na hora do café da manhã.

        - Desculpem, demorei para pegar no sono ontem à noite.     
        - Não me espanta – disse Clara, acrescentando – Na certa ficou a divagar como durante à tarde.
        Após o café, Wagner conversou um pouco com a tia na cozinha e, ouvindo a voz de Fábio que mais uma vez brincava com o cão no quintal, dirigiu-se para lá. Desta vez, decidido a trocar algumas palavras com o garoto. Porém, quando viu-se perante este foi tomado por uma mudez, uma ausência de qualquer palavra que pudesse dirigir ao menino.
        Pôs-se de cócoras a observá-lo. Depois levantou-se e rodeando a casa encaminhou-se para a calçada e saiu caminhando a esmo.
        Quase não havia pessoas na rua. As casinhas ladeavam a estreita rua e o sol despejava seus raios amarelos esmaecendo a paisagem.
        Caminhou por um bom tempo, o sol já se punha a pino quando de regresso encaminhou-se mais uma vez para os fundos da casa e deu com Clara, o tio e Fábio juntos no quintal.
        Da cozinha exalava o aroma do almoço que em breve seria servido.
        - Clara! Venha  até aqui, quero lhe falar – sentenciou o rapaz.
        - Só um momento – respondeu a moça. Pediu licença a Oscar e foi ter com o namorado.
        - Não volto hoje com você como combinamos. Quero ficar mais alguns dias. Vá na frente e avise a meus pais que no máximo em dois ou três dias estou de volta. Há muito não via meus tios e desejo estar junto deles por mais algum tempo. Tudo bem?
        - Claro Wagner, não há problema algum. Eu não fico com você, porque como sabe tenho meus compromissos, o trabalho, a faculdade...
        - Ótimo! Ficamos assim combinados, vou avisar minha tia.

        Wagner participou à tia seu projeto de demorar-se lá por mais uns três dias e esta mostrou-se feliz. Indagou porque a moça não ficava também, e Wagner explicou a necessidade desta de regressar sem ele.
        Quanto a ele, podia faltar no emprego alguns dias, mesmo que despedido não estaria perdendo grande coisa, logo arrumaria algo melhor.
        E assim se deu. Clara partiu no ônibus que deixou a rodoviária no final daquele mesmo dia. Todos a acompanharam até lá, regressando logo após para casa.
        À noite, mais uma vez Wagner ficou a virar de um lado para outro da cama, e quando já ia adormecendo ouviu um galo cantando ao longe. Olhou no relógio de pulso e já passava das cinco horas da manhã.
        Levantou-se. Lavou o rosto no banheiro e saiu para o quintal onde viu o dia raiar.

        Não demorou muito para que os tios se levantassem. Quando sentiu o aroma do café, adentrou a cozinha. Assim que o viu a tia exclamou sorrindo:
        - O que houve? Caiu da cama!
        Wagner respondeu sombrio:
        - Perdoe-me tia é que ando dormindo pouco ultimamente.
        O café foi servido. Os tios, o garoto e Wagner sentaram-se à mesa. O olhar de Wagner desta vez permaneceu fixos no pequeno Fábio, que encabulado retirou-se o mais rápido que pôde.
        Wagner constrangido levantou-se e saiu rumo à sala sentando-se desta vez numa cadeira de balanço antiga de vime, próximo à janela, por onde adentrava uma brisa suave. Uma cortina de tecido barato esvoaçava.
        O tio de Wagner foi rumo ao quintal ter com o filho.
        A tia veio então até a sala trazendo consigo uma fatia do bolo que rendera até então, e indagou dele:
        - Ora essa, porque um rapaz tão saudável como você anda agora com insônia? Tome, coma mais esta fatia de bolo e depois vá para o quarto repousar um pouco até sair o almoço.
        Wagner então pegou o pires com a fatia de bolo e agradeceu a tia.
        Esta virou-se rumo à cozinha, quando de súbito Wagner acrescentou:
        - Tia, poderia me trazer um copo de leite?
        - Lógico querido!
        Volta ela com o leite e mais uma vez o adverte:
        - Em seguida vá descansar um pouco.
        - Certo, - respondeu o rapaz.
        Mal a tia vira as costas e desaparece na cozinha, Wagner coloca o pires com o bolo na mesa de centro da sala. Toma o leite, em seguida, arremessa o copo contra o aparapeito da janela. O copo estilhaça-se. Wagner toma de um dos cacos de vidro e com mão firme, bruscamente, golpe após golpe fende ambos os pulsos e tomba estendido no chão.
       A tia que ouvira o barulho dos estilhaços do vidro quebrando, entra na sala e sufoca um grito desesperada perante aquela cena. Trágico foi o  fim daquele pobre rapaz, vitimado por um sentimento, senão condenável, na certa de natureza rara e misteriosa.

FIM

       

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